segunda-feira, 19 de abril de 2010

Odete, ouve o meu lamento.


O espetáculo "Odete traga meus mortos", de meu amigo Edu O. e Lucas Valentim parece ter reverberado na alma de todos que tiveram contato com ele-ela. Ninguém saiu ileso. Certamente houve quem tapasse os olhos e ouvidos, mas indubitavelmente os ecos de Odete ficarão ali dentro à espera do momento certo para ganhar os ventos e ressoar.

O impacto que Odete provoca nas pessoas vem justamente do fato de discutir um tema que inquieta a todos: a morte, a perda, a validade das coisas. É tudo uma coisa só. É coisa que agente é obrigado a conviver desde o momento em que nasce. É a única coisa que nós nascemos sabendo que vai acontecer. É a nossa única certeza inexorável.

Desde que Odete surgiu, e ela agora é como se fosse uma entidade materializada, tem me feito pensar. Penso na morte de todo dia. Nas pequenas e grandes perdas. No quão isso é tão corriqueiro e, contraditoriamente, assustador. Nestes "pensares" Odete também trouxe os meus mortos. Lembrei da minha querida avó, do meu querido Douglas, das minhas paixões da infância, das amizades indestrutíveis da adolescência, dos sonhos e planos da juventude, dos projetos profissionais, dos amores eternos, da inocência, dos quereres, das certezas, das verdades. Todos mortos ou agonizantes. Alguns ainda vivos por puro apego.

O modelo de Kübler-Ross, que define os cinco estágios da morte, para mim é ainda o que melhor explica os sentimentos envolvidos na perda. Qualquer perda. Apesar da teoria defender que as etapas podem não ocorrer na sequência inicialmente descrita - e que algumas pessoas não passam por todas elas -, eu ainda acredito que é assim mesmo que ela acontece com a maioria de nós.

Primeiro, a negação. Negamos até o limite máxino. Nos negamos a enxergar, a aceitar, a entender. Tapamos olhos e ouvidos. Fingimos, encenamos, insistimos em repetir que está tudo bem, que tudo continua no mesmo lugar. Enfim, negamos. Creio que esta é a etapa mais demorada, por conta do apego. O danado do apego que insistimos em ter com tudo que nos é caro... e algumas vezes com coisas que nem deveriam ser e que a gente só descobre depois do luto.

Depois vem a cólera. Nos revoltamos com o mundo, com o outro, com Deus, com o que estiver ao nosso alcance. Perguntamos "por que comigo?" Olhamos para fora e não para dentro. Buscamos sempre no externo, o que muitas vezes só encontramos dentro de nós. "O inferno são os outros", já dizia Sartre. Mas a intolerância às frustrações é algo que praticamente nasce com a gente. Tem gente que aprende a lidar bem com isso, mas tem gente que morre sem saber. E quando é assim, a gente responsabiliza o outro, até mesmo porque é mais fácil depositar a "culpa" em alguém que não seja eu. Esta etapa também é uma das mais difícies de se vencer, de ser ultrapassada. Há quem fique anos nela envenenando a alma... impossibilitando que qualquer coisa bonita possa nascer.

A terceira etapa é a barganha. Vamos negociar. Nos humilhamos, imploramos, oferecemos até o que não temos pra dar, o que não se pode dar. Fazemos promessas. Nesta hora entra Deus, entram os Orixás e todos os santos que existirem. Nesta hora deixamos tudo de lado: nossas crenças, nossos valores, nosso orgulho. O medo da perda, da morte das coisas é tão grande que vale qualquer sacrifício.

A penúltima etapa é a depressão. A tristeza nos consome, a dor é tanta que nos imobiliza. Lamentamos, choramos, recorremos a todos os amigos, nos isolamos... Toda a dor do mundo mora em nós. Ficamos sem chão, é como se o mundo desabasse em nossa cabeça. Tudo é ausência. Perdemos o sono, o apetite, o brilho. Viramos cinzas...

Por fim, chegamos à aceitação. Vivemos o luto da perda até sua última gota. Vamos ao fundo do poço e de lá ressurgimos de novo para a vida e para outras mortes. Quando aceitamos a perda - seja a perda da saúde, de um ente querido, do amor ou de um sonho -, nossa relação com o mundo e com nós mesmos muda. Nos fortalecemos e passamos para um estágio da vida em que tudo é possibilidade.

Como o ser humano é de uma complexidade ímpar, tem quem passe por todas as fases num curto período de tempo. Há quem leve anos. Uns, à medida que o tempo passa, vão aprendendo a lidar melhor com isso e já não sofrem tanto. Outros se embrenham num círculo vicioso e repetem insistentemente um padão comportamental nocivo, em que cada perda é como se fosse a primeira. Enfim... somos humanos e nunca iguais.

Voltando a Odete... não tive o privilégio de assistir ao espetáculo, mas ele-ela ficou em mim. Trouxe meus mortos. Ecoou e ressoou dentro de mim. Me impeliu à ação. Me fez enfrentar uma morte há muito vivida, mas ainda inacabada. Faltava alguma coisa... Enfrentei ela de frente: sem lágrimas, sem pesares, sem dor. Joguei a última pá de cal no caixão cerrado dentro da cova. Saí sorrindo de satisfação pela coragem. Alma alegre e feliz... tomando chá com bolachas. Foi libertador.

Odete trouxe meus mortos. E os teus, onde estão?


Ps.: "Odete, ouve o meu lamento" é uma canção de Vinícius Eliud e Herivelto Martins. A única versão que encontri foi este vídeo no Youtube na voz de João Gilberto, presente de Djean Felipe. Um achado.

sábado, 17 de abril de 2010

Mistérios do amor...

Hoje assisti diversas vezes o vídeo de uma criança soluçando por uma amor. Ela tem apenas 4 anos. Sofria e soluçava com tanta veracidade que eu fiquei chocada.
Imediatemanete pensei: que mistérios guarda o amor, ou isso que chamamos de amor? Como uma criança de quatro anos pode experimentar isso com tanta intensidade, pois seu sofrimento era real?
Lembrei das várias ocasiões em que este sentimento me consumiu. Lembrei de quando amor era tudo que eu queria e precisava para continuar viva. Revivi todas as paixões dilacerantes, enlouquecedoras...tudoemapenasumsegundo. E me vi naquela criança, que ainda trago em mim.
Amei e ainda quero e vou amar demais. Exercito o amor diariamente. Nos gestos, no pensamento, no meu exercício diário de viver. Amo sem constrangimentos, sem pesares. Sei amar e sei ser amada. Aprendizado cotidiano, exercitado minuciosamente do rair do sol ao descansar das estrelas.
Viva ao amor, viva aos encontros... viva a poesia que ele traz para as noites cinzentas, viva às cinzas que ele transforma em brasas ardentemente acesas.
Sou uma amante irremediável. Que assim seja, até meu último suspiro!
Celebremos os mistérios do amor...

sábado, 10 de abril de 2010

A validade das coisas

Como muitas vezes disse e não canso de repetir, sou uma pessoa privilegiada. Pela vida e pelas pessoas que tenho à minha volta.
Meus amigos são artistas. Artista mesmo e não é piada. Sempre gostei de artes e a vida foi fazendo com que meu caminho cruzasse com o destas pessoas, e sempre lembro do que minha avó dizia: "o rio só corre pro mar". Sempre adorei literatura e fui me apaixonando pelo mundo das artes através dos meus amigos.
Eu fui apresentada à dança por um dos mais especiais deles: minha paixão, minha referência, minha loucura e minha lucidez, Carlos Eduardo. Aprendi a apreciar a linguagem do corpo e toda poesia que ela carrega em si. Aprendo com ele sobre esta forma de estar poeticamente no mundo, me concectanto e interagindo de forma concreta e abstrata ao mesmo tempo. Não precisa ter lógica, não precisa entendimento... é só sentir.
Ontem ele estreou seu mais novo espetáculo "Odete, traga meus mortos", de título bastante original, como tudo que faz, e que discute uma questão que inquieta a todos: as ausências. Não pude ver a estréia, mas já soube que Odete mexeu com quem a viu chegar ao mundo.
Ela disse: "Eu nunca soube lidar com o prazo de validade das coisas." Isso é a cara do Edu... isso é a minha cara... isso é a sua cara, com certeza.
Parece que estou me vendo, sentada com ele em algum meio-fio de alguma calçada dos bairro da Barra em Salvador, a pensar sobre a vida, sobre as relações, sobre os encontros e desencontros, sobre as marcas que deixam em nós, sobre o amor, sobre a alegria, a amizade, a perda, as loucuras todas que nos encantam e tiram o sono. Ai que saudade de tê-lo ao meu lado na hora que me apetece...
Minha relação com esse amigo é coisa pra muitos posts. Já ensaiei vários, mas nunca consigo traduzir de maneira suficientemente boa a natureza da nossa relação... do nosso amor. Espero que um dia eu consiga. Mas isso não é conversa pra agora. Hoje é dia de comemorar a chegada de Odete, que veio quietinha, sem febres - como dona Judite -, mas que com certeza veio pra ficar e pra marcar.
Viva a Odete, viva a vida que ela renova, a alegria que ela provoca. Que tenha vida longa... que alongue vidas. Evoé!

"Quem ilumina aqui sou eu!"

E foi isso que de fato ela fez... iluminou!!! Iluminou o palco e iluminou a vida de quem foi lá para vê-la. A luz daquele dia era diferente. Nunca havia visto Maria Bethânia tão no palco como ontem.
Ela sempre é incrível e seu canto penetra e inebria a todos. Mas ontem, o que testemunhei foi uma outra Bethânia, visivelmente apaixonada, alegre, lépida e faceira dançando, sorrindo, tocando as pessoas por dentro e por fora e se deixando tocar. Seu brilho estava diferente. Seu riso, sua alegria eram evidentes. Quando cantarolou ou versos "do jeito que você me olha, vai dar namoro", surpreendeu a todos e provocou reações que só ela é capaz. Amor, festa e devoção: tudojuntoemisturadonumapessoaso.
Quando vejo Maria Bethânia cantar é como se eu voltasse a ser criança em Santo Amaro. Como se eu me visse de novo indo pra novena de Nossa Senhora, brincando no parque na frente da prefeitura, andando na rua do Amparo tocando as campanhias das casas, sentando na praça em frente ao chafariz. Não é tristeza, não é melancolia... é a nítida sensação de que o tempo passa e com ele leva muita coisa, mas traz outras igualmente bonitas. Lembrança sem tristeza... E foi lindo lembrar e celebrar com sorrisos e não com lágrimas, apesar da emoção ter tomado o corpo.
A noite de ontem foi pura poesia. Alegria inconteste: pelas companhias, pela luz que nos ilumina(va) naquele momento e pela certeza de a vida me leva sempre para o caminho onde as luzes estão acesas e a escuridão não mais assusta.

quarta-feira, 7 de abril de 2010


Tenho sentido uma paz tão grande ultimamente. Eu que era cheia de urgências. Que precisava delas para viver... porque senão a vida não tinha graça. Emoção, muita emoção.

Agora a paz me comove. A tranquilidade de viver sem sobressaltos, cada dia de uma vez... sorvendo sua doçura e acidez com delicadeza. Ai que delícia!

Todo dia repito pra mim, setecentasmilvezes, que sou feliz. Me sinto privilegiadapor tudo que tenho: pelos amigos, pela família que "constituí", pelo meu trabalho, pela minha casa, pelo meu coração, pelas minhas escolhas. Uma calmaria só...

Acordar todos os dias com alegria por estar vivo, por ter amor e por ter paz não tem preço. Não me canso de agradecer. Não me canso de pedir que assim permaneça: tranquilo e cheio de emoção.

Amém...