quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O velho...

"Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligavam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali."

Charles Bukowski

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A voz mais fiel

Eu adoro Maria Bethânia. Poderosa, altiva, hipnótica, transcendental, misteriosa e... antipática! Adoooooro a "antipatia" de Bethânia... e adoro vê-la em vestes de mortal.

Foi num destes raros momentos que vivi uma das situações mais engraçadas de minha vida. Maria Bethânia e meu amigo Fernandinho foram os protagonistas do episódio. Estávamos apenas ele, ela e eu. Até hoje rio ao lembrar. Ainda sou capaz de ouví-la dizer com o semblante entristecido e os braços estendidos em direção à imagem de Nossa Senhora da Purificação:

"- Por que lembrar Minha Daia, Fernandinho??"

Virou jargão. É impossível esquecer: ele humildemente ajoelhado a seus pés, ela contemplativa e soberana sentada em uma cadeira de palha. É o tipo de cena que definitivamente não se esquece.

Fico feliz em guardar algumas semelhanças com ela: nascemos na mesma cidade, somos do mesmo signo, somos filhas de Iansã. Esta última semelhança, com certeza, é a que mais nos aproxima. Somos filhas da senhora dos ventos fortes, dos raios e trovões.

Pierre Verger assim descreve o arquétipo da Oiá-Iansã:

“[...] é o das mulheres audaciosas, poderosas e autoritárias. Mulheres que podem ser fiéis e de lealdade absoluta em certas circunstâncias, mas que, em outros momentos, quando contrariadas em seus projetos e empreendimentos, deixam-se levar a manifestações da mais extrema cólera".

Hoje eu queria homenageá-la e lembrei de um texto escrito pelo Caio, aquele que tanto amo. Ontem ele falou da Clarice. Hoje ele fala de Berré.

Este texto foi publicado no disco Simplesmente o melhor de Bethânia de 1988.

"De jeans e camiseta, cabelo preso, aos gritos de ‘pega, mata e come!’, Bethânia foi musa da esquerda, tempos do show Opinião. Graças ao acaso – se acaso existe e não, destino – que trouxe a menina Berré de Santo Amaro da Purificação, Bahia, para os palcos do centro do país. Peruca canecalon, coberta de colares e pulseiras, gestos largos, recitando Fernando Pessoa e Clarice Lispector - Bethânia foi musa. A voz muito grave, sussurrando versos sensuais, embalou os amores dos casais pelos motéis, rivalizando nas vendas de discos com o rei Roberto Carlos. Prendeu, soltou os cabelos, calçou, tirou os sapatos, largou as gravadoras comerciais, no auge do sucesso, trajetória inversa, tornou-se independente: conquistou o direito de gravar o que gosta, num repertório coerente e fiel à música brasileira.

Foram muitas Bethânias nesses mais de vinte anos. Ou era uma só? O escritor Júlio Cortázar, fã confesso (não fosse um iniciado em magia), afirmava que Bethânia e Caetano são uma única pessoa: Yin/Yang, homem/mulher, Oxóssi/Iansã. Foi muito ‘in’, ficou inteiramente ‘out’ – até ultrapassar as divisões maniqueístas dos manipuladores da opinião pública para ocupar esse lugar muito especial só reservado aos mitos. Bethânia, deusa guerreira, de espada em punho e voz rouca, inconfundível, procurando sempre versos que falem às emoções dos apaixonados. Gosta-se dela como se cai em estado de paixão: além de qualquer razão. E bela. Bela de um jeito que não é comum ser bela, cantora como não é comum ser cantora – nesse desregramento de padrões estéticos, Bethânia funde a aspereza de onde começa o Nordeste com o requinte dos blues de uma Billie Holiday. Cantora diurna das terras crestadas pelo sol, mas também noturna, dos lençóis de cetim úmidos de suor e amor, transita numa carreira de impecável coerência com sua própria criatura: dividida em mel e espada. Padroeira dos apaixonados, também divididos entre o mel e a espada cortante da vingança. Dessa extensa legião, Maria Bethânia é a voz mais fiel."

Caio F.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pó de Clarice


Não me contive... tive que postar algo da Clarice.

Eis a sua resposta ao amigo Lúcio Cardoso, quando este disse não gostar do título do livro O lustre publicado em 1946.

"Me entristeceu um pouco você não gostar do título "O Lustre". Exatamente pelo que você não gostou, pela pobreza dele, é que eu gosto. Nunca consegui mesmo convencer você de que eu sou pobre... Infelizmente, quanto mais pobre, com mais enfeites me enfeito. No dia em que eu conseguir uma forma tão pobre como eu o sou por dentro, em vez de carta, você receberá uma caixinha cheia de pó de Clarice."

Deve ser assombroso chegar a esse nível de compreensão de si mesma. E dizê-lo...

Caio e Clarice...

Todos sabem da minha paixão declarada pela Clarice Lispector e pelo Caio Fernando Abreu. Me deu uma saudade deles. Saudade do cheiro e das formas de seus livros que enfeitavam "minha" estante e hoje estão guardados em uma caixa. Não aquela caixa bonita com um laçarote vermelho... e sim aquelas caixas onde se escondem coisas que não se quer mais ao alcance das vistas, o que não se quer ver a olho nu.

O engraçado é que tenho plena conviccção de eles nunca sairam ou sairão da estante. É que não falo daquela estante pregada ou encostada numa parede fria que os transforma em matéria bolorenta. Falo da estante viva que sou eu... que guardo dentro de mim as cores, formas, aromas e, principalmente, a essência de tudo que me é caro e marca profundamente.

Neste dia de saudade cinzenta, lembrei da Clarice e do Caio. Queria tocá-los através dos seus escritos...

Para abrir as comportas da saudade represada, não vou colocar o escrito de um ou do outro... farei melhor, colocarei o escrito de um sobre o outro. Este é o trecho de uma carta do Caio para seu amigo José Penido em que fala da Clarice.

"Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud."

Ele falava dela, mas tenho a impressão de que falava um pouco de si. Ao falar do destino dela, profetizava o seu também.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Dia de branco

Acredito que se perguntarmos a qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, qual é o pior dia da semana, a maioria responderá que é a segunda-feira. A maldita segunda-feira... que tem a capacidade de tornar o cair da tarde de domingo deprimente.

Aqui não seria diferente. Mas, como tudo aqui é diferente... a segunda-feira tem mais uma peculiaridade: é o dia "menos pior" para se sair de carro. O pior dia para se arriscar no trânsito é a terça-feira, quando oficialmente se começa a semana em Luanda.

Eu fiz esta descoberta numa conversa despretensiosa a caminho de uma reunião, quando alguém mui sabiamente explicava porque estava particularmente complicado chegar ao nosso destino naquele dia. O que eu não imaginava é que aquela revelação me proporcionaria um dos momentos mais "hilários" que já vivi aqui. Para que vocês percebam bem a situação, terei que me estender um pouco... mas garanto que valerá a pena ler até o final. Vamos lá!

Aqui, nós identificamos e classificamos os motoristas particulares em duas categorias bem distintas: os ex-candongueiros (vide dicionário de angolês) e os principiantes. É impossível confundí-los... ou era, até conhecermos o Otávio!

Otávio é um motorista recém-contratado da empresa. É um negro forte, cheio de marra, de 1,90m de altura, que usa um ray-ban com armação de plástico branco e faz licenciatura em matemática numa faculdade daqui. Ele dirige de um jeito muito peculiar que provoca ira e risos nos demais passageiros. É meio sem-noção, mas uma alma boa. Como costumamos dizer por aí: o cara é uma figura!!!

Pois então... estávamos voltando do almoço um dia destes e Airi resolve tirar a dúvida atroz que nos consumia desde que ele conduziu pra nós a primeira vez. Perguntou-lhe então se ele havia sido candongueiro. Qual não foi nossa surpresa quando ele disse que sim. Então a conversa se desenrolou até ele nos contar qual era o "seu dia" na candonga. Era a terça-feira.

Quando ele disse que o "seu dia" era a terça-feira ela perguntou por quê, já que a maioria dos relatos demonstravam que os sábados eram os dias prediletos, os que mais rendiam. Foi aí que eu usei a minha descoberta fantástica: é porque terça-feira é o dia de maior movimento aqui. É a segundona dos outros lugares. É o dia em que as pessoas saem para trabalhar, depois do final-de-semana.

Então eu, com toda minha "sapiência", complementei:

- Essa é a origem da expressão "segunda-feira é dia de branco", muito usual no Brasil.

Ela nunca tinha ouvido isso, então foi necessário aprofundar a explicação:

- Segunda-feira é dia de branco porque é dia de trabalho, de quem trabalha. Preto é preguiçoso, portanto não trabalha dia de segunda.

Quando eu ironicamente disse isso, pra minha surpresa, Otávio me sai com essa:

- É isso mesmo!!! Preto é tudo preguiçoso, a gente não gosta de trabalhar não. A gente quer é ganhar a vida sem precisar trabalhar. A gente gosta é de ficar na preguiça... descansando. Chega o domingo a gente toma todas, vai uma cervejinha, uma caipirinha - como vocês falam no Brasil - e na segunda quase ninguém vai trabalhar. Tá todo mundo ressacado!

Eu e Airi nos olhamos e começamos a rir. Não paramos de rir e ele não parou de apresentar argumentos para defender a sua tese. Eu, espantada e rindo nervosamente, só dizia: "É mesmo seu Otávio?".

Ele falou mais um monte de absurdos que, infelizmente, não tenho como reproduzir fielmente. Nós ríamos, incrédulas.

A análise do episódio e todos os seus desdobramentos filosóficos, antropológicos e sociais eu vou deixar para outro dia. É muita emoção para um post só... e afinal, hoje é segunda-feira e eu sou preta, logo...