quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Aos caminhos, eu entrego nosso encontro


Não me aproximo porque, veja bem, sabe lá quem habita a tua solidão. Hesito. Recuo. Me afasto tristíssima. E te imagino em poses e sorrisos, voz grave e cabelos desgrenhados, preso nas minhas fantasias mais loucas e movimentadas. Numa delas sou um bichinho invisível, com asas, que adentra tua casa e te observa em segredo. Faço o contorno do teu corpo todo com os olhos, parada contra a parede do teu quarto, imóvel, enquanto tu te atiras na cama. Cansado. Tu olhas para o teto imaginando mil coisas, memórias, compromissos, desejos, saudades. Te fito com dor. A luz do abajur faz sombra na tua pilha de livros, que folheei um dia e quis pedir emprestado mesmo sabendo que não havia intimidade para pedidos. Por razões que desconheço, nossas aproximações foram sempre pela metade. Interrompidas. Um passo para a frente e cem para trás. Retrocessos. Descaminhos. Procuro sinais de algum amor teu. Vestígios de noites passadas. Tu não me vês, estou incógnita a te observar. Como sempre estive, olhando pelas janelas, de longe, coração apertado. Nós poderíamos ser amigos e trocar confidências. Assistiríamos a filmes, taça de vinho nas mãos, e tu me detalharias as tuas paixões e desatinos. Nós poderíamos ser amantes que bebem champanhe pela manhã aos beijos num hotel em Paris. Caminharíamos pela beira do Sena, e eu te olharia atenta, numa tentativa indisfarçável de gravar o momento e guardá-lo comigo até o fim dos meus dias. Ou poderíamos ser apenas o que somos, duas pessoas com uma ligação estranha, sutilezas e asperezas subentendidas, possibilidades de surpresas boas. Ou não. Difícil saber. Bato minhas asas em retirada. Tu dormes, e nos teus sonhos mais secretos, não posso entrar. Embora queira. À distância, permaneço te contemplando. E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro. Porque tu és o único que habita a minha solidão.

Paula Pfeifer

P.S.: É engraçado quando você encontra alguém que traduz exatamente o que querias dizer. É como se você não estivesse só...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A hora da estrela


"- Por que é que me pede tanto aspirina? Não que eu esteja reclamando, embora isto custe dinheiro.
- É para eu não me doer.
- Como é que é? Hein? Você se dói?
- Eu me doô o tempo todo.
- Aonde?
- Dentro,não sei explicar."

Clarice Lispector e sua simplicidade assustadora para falar de coisas complexas. Ela me assusta...

domingo, 5 de dezembro de 2010

Activia e Red Label

Naquela noite Dra. Vani estava disposta a resolver seus problemas financeiros. Iria de qualquer jeito angariar uns clientes para seu consultório. Banhou-se com candura. Vestiu-se com esmero. Pôs nos pés "seu rico scarpin amarelo". Gastou as últimas gotas de seu perfume importado. Penteou seu cachos tinturados com delicadeza. Partiu para a batalha.

Chegou ao Bar de Geraldo e acomodou-se numa mesa perto de um suposto casal. Os dois riam sem parar. E não era um riso sutil... eram gargalhadas sonoras que chamavam a atenção de todos os clientes. Pareciam muito felizes. Ela então pensou: "Esses aí não parecem ter problemas. Não são clientes em potencial". Ficou ali a observar, tentando identificar gente infeliz. Passada meia hora ela ouve um daqueles dois supostamente muito felizes dizer ao garçom que lhes servia mais uma dose de caipirinha:

- A gente só quer a dobrada, porque a tristeza hoje é grande! Quanto maior a tristeza, maior tem que ser a dose!

Eles repetiam aquilo e riam nervosamente. O garçom, que parecia lhes conhecer de longa data, obedecia sem questionar e trazia as tais "dobradas", que eram exclusividade daquela mesa. O radar da Dra. logo apitou e ela se aproximou dos dois para escutar melhor a conversa.

Falavam coisas que só eles pareciam compreender. Aparentemente se queixavam de amores mal sucedidos. Para entender melhor o que falavam era necessário muita atenção e sensibilidade. Precisava ler nas entrelinhas e abstrair os palavrões.

- Aquele desgraçado cagou um quilo certo na minha cabeça. Fui humilhada!!! (A mulher repetia como um disco riscado).

O amigo só ria e dizia:

- Ô amiga... e eu? Tive que enfiar a cabeça no c... e dar cinco voltas! Me humilhei também!!! A gente paga!!! (Gargalhavam sacudindo os corpos e jogando as cabeças para trás. Se abraçavam e pediam mais uma "dobrada"). - Me dá mais uma dose de tristeza! A gente só tá bebendo assim porque tá triste! Isso não é cachaça não... é tristeza fio!

O garçom já não ria mais. Já passava das quatro da manhã e eles não iam embora. Só restavam eles e a Dra. sentados no bar. Ela encorajou-se e perguntou pra um deles se podia se juntar à mesa animada. O rapaz logo respondeu:

- Claro ninha... sente aí. Mas eu vou logo te avisando que a gente hoje tá triste!

Dra. Vani disse que não se importava, que estava a observá-los fazia tempo e que precisava de companhia também. Engatou uma conversa sobre essas coisas do coração, que ela conhecia bem. Desilusões eram sua especialidade. Falava do assunto com conhecimento de causa. Dispunha de uma vasta lista de episódios que poderia compartilhar e... lamentar.

A conversa se entendeu até as seis da manhã. Riram e beberam a noite inteira, dizendo que aquilo era "trsiteza". Os garçons foram embora e só restou Geraldo, dono do bar, que conhecia bem a dupla e os considerava clientes especiais. Ficaria ali até que eles desistissem. Uma hora eles se renderam. Quer dizer, tiveram que se render: acabou o limão, acabou o kiwi, acabou o morango. As dobradas já eram. Foram vencidos pela carência de matéria-prima para suas "tristezas".

Depois de muito ouvir sobre os dilemas e problemas da dupla e compartilhar os seus, na despedida, Dra. Vani - que já havia conquistado sua confiança -, sacou seus flyers e os convidou para comparecerem ao seu consultório naquela tarde. Disse que os aguardaria para uma consulta "sem compromisso" e que os ajudaria a vencer suas dificuldades. A mulher, num riso sarcástico guardou o papel na bolsa e disse:

- A gente já faz terapia! A gente faz a terapia do "activia e red label". Você não conhece?

Dra. Vani, tão antenada com as novas tendências da psicoterapia, se surpreendeu. Nunca ouvira falar em algo parecido. Seria alguma nova droga lançada pelo mercado farmacêutico? Seria alguma técnica revolucionária criada por algum nerd americano? Constrangida com sua ignorância no que se refere às novas tendências de sua área competência, respondeu cabisbaixa:

- Não, essa eu ainda não ouvi falar...

A dupla ri escandalosamente e grita, se distanciando:

- É a terapia do "cagando e andando" para os problemas. A gente vai te mostrar agora!

E sairam rindo e fazendo uma coreografia que mais parecia a "dança da galinha" (aquele hit do Luiz Caldas nos anos 80), indo pra frente e pra trás.

Num misto de incredulidade e alívio, Dra. Vani também soltou uma gargalhada e se foi, certa de que eles apareceriam no seu consultório no dia seguinte. Tinha enfim encontrado seus clientes ideais.

Pitadas de Caio F. - Parte II

"Venha quando quiser, ligue, chame, escreva - tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim."

"Tudo é ilusão, tudo é só estrada que corre e corre, e todas as estradas vão para o mesmo lugar. Que as paisagens dessa estrada sejam belas, então."

"Que a maneira mais absoluta de aceitar alguém ou alguma coisa seria justamente não falar, não perguntar - mas ver. Em silêncio."

"Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é. Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas."

"É assim o nosso ciclo. eu te preciso. perto, longe, tanto faz. preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também."

"Para que não me firam, minto (...) E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também."

"Volta que eu cuido de ti e dou um jeito qualquer de tu ficares bom e então nós podemos ir embora(...) qualquer outro lugar onde tu possas ficar completamente bom do meu lado e para sempre, volta que eu te cuido e não te deixo morrer nunca."

"Foi muito lindo tipo ver pela primeira vez e pensar, sem palavras:´eu quero`."

"Que coisa maluca a distância, a memória. Como um filtro seletivo, vão ficando apenas as coisas e as pessoas que realmente contam."

"Dói tanto que não dói mais. Como toda dor que de tão insuportável produz anestesia própria."

"Aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia."

"A gente nunca pode julgar o que acontece dentro dos outros."

"Durante algum tempo fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade da maneira mais humana possível: fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem. Não solucionaram."

"O pó se acumula todos os dias sobre as emoções."

"Sinto muito, mas ele sempre está lá. Incógnito, invisível, inviável. In, enfim."

"Acontece que descargas, não quero parecer alarmista, às vezes entopem. E devolvem justamente aquilo que deveriam levar embora."

"...já não sei o que digo nem o que sinto mas persistirei no que pressinto..."

"Bem na curva onde o pescoço se transforma em ombro, um lugar onde o cheiro de nenhuma pessoa é igual ao cheiro de outra pessoa."

"Não faz diferença se você vem amanhã ou não vem. Desisti de esperar por alguém cuja ausência me faz companhia."

"Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca?"

"Trata-se de uma decepção diferente: não penso obsessivamente, não tenho vontade nenhuma de ligar nem de escrever cartas, não tenho ódio nem vontade de chorar. Em compensação também não tenho vontade de mais nada."

"Não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha à mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar."

"De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida."

"Perdi um pedaço, tem tempo. E nem morri."

"Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se e perguntasse você se sentiria obrigado a responder e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é."

"Porque ver é permitido, mas sentir já é perigoso. Sentir aos poucos vai exigindo uma série de coisas outras, até o momento em que não se pode mais prescindir do que foi simples constatação."

"Quando se deseja realmente dizer alguma coisa, as palavras são inúteis. Remexo o cérebro e elas vêm, não raras, mas toneladas. Deixam sempre um gosto de poeira na boca - a poeira do que se tentava expressar, e elas dissolveram."

"Não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente."

"Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição."

"Anyway, me dói a possibilidade de um não, me dói a possibilidade de um silêncio, me dói não saber de que forma chegar a ele, sacudi-lo, dizer "me olha, me encara, vamos ou não vamos nessa?". Bueno, os dados estão lançados, e agora só me resta lavar as mãos sujas do sangue das canções."

"E gosto das tuas histórias. E gosto da tua pessoa. Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto."

"Não sei se será possível à gente escolher as próprias verdades, elas mudam tanto. Não só por isso, nossas verdades quase nunca são iguais às dos outros, e é isso que gera o que chamamos de solidão, desencontro, incomunicabilidade."

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O debut

Dra. Vani não era uma aluna das mais brilhantes. Poderíamos considerá-la mediana. Não que lhe faltasse inteligência, o que lhe faltava era disposição para os estudos. Sempre foi assim: só estudava o suficiente "pra passar". Faltava às aulas o quanto podia e mesmo quando ia só vivia a "fazer uma social" com os colegas. Era muito popular. A nimadora de festa oficial da faculdade. Se morasse nos EUA seria, com certeza, a rainha do baile.

Quando se formou, ficou desesperada. Não tinha dinheiro pra alugar uma sala e abrir seu consultório. Teve uma crise de consciência e não queria mais explorar o pobre coitado do pai que sustentara suas suas loucuras durante todos aqueles anos. Então teve a idéia de se desfazer de seus bens mais preciosos: uma barraca de praia "luxuosa", que comprou juntando o dinheiro da merenda durante o Ensino Médio; um carro velho, mas cheio de histórias, que a cada km rodado precisava ser empurrado e; uma edição rara do primeiro disco de Sarajane, a moça do "abre a rodinha, por favor!"

Com a grana da venda destes "bens preciosos" conseguiu pagar um mês de aluguel de uma sala, não muito agradável, no nobre bairro da Pituba. A decorou com carinho, usando objetos pessoais que faziam parte de sua coleção de quinquilharias hippies compradas nas praias por onde passava. É... além de tudo a Dra. Vani era conhecida entre os amigos como pseudo-hippie, pois não conseguia sustentar o estilo por muito tempo. Não resistia a um perfume importado e a uma tintura no cabelo. O dinheiro não foi suficiente para adquirir móveis decentes, então pegou uma velha escrivanhinha na casa da avó e no lugar do divã instalou uma rede em seu consultório. Ficou feliz com o resultado, pois daquele jeito os seus pacientes se sentiriam "em casa". Colocou uma plaquinha na porta onde se lia: "Dra. Vani - Tirapeuta Holística". É... eu não escrevi errado, era "Tirapeuta" mesmo e logo todos entenderão o por quê. Ela não queria ser como as outras. E o holística foi parar lá só porque ela achava a palavra "sonora".

Preparado o ambiente, Dra. Vani acordava ao meio-dia e chegava ao consultório às 13 horas, impreterivelmente. Só atendia à tarde, porque quem precisa acordar cedo pra fazer "tirapia" é peão e peão não teria "aqüé" pra pagar seus honorários obscenos, como já dito anteriromente. Na primeira semana não apareceu ninguém. Ela se preocupou, pois precisava garantir o aluguel do espaço no mês seguinte. Foi então que teve a idéia de confeccionar uns flyers divulgando seus serviços e distribuir nas boates onde dançava. Peregrinou também pelos bares da Pituba e da Barra, além da praia do Porto e adjacências. Ela escolhia seus clientes a dedo e estava certa de que era nestes ambientes que encontraria os "problemáticos" que necessitariam dos seus serviços. E não deu outra.

Na segunda semana bate à sua porta um cidadão esquisito, com dentes amarelados e bonitos, olheiras fundas, cabelo black power, barba por fazer. O paciente dos sonhos da Dra. Ela abriu a porta e sorriu cortês para o moço ali parado, quase catatônico. Ela o convidou para entrar e pediu que se deitasse na rede.

Dra. Vani (sorridente): - Como tomou conhecimento dos meus serviços?

Black-power (investigando o ambiente): - Peguei um flyer no Bar de Geraldo.

Dra. Vani (tentando lembrar do lugar): - Hum... que interessante.

O Black-power observa o ambiente, levanta-se e brinca com um filtro dos sonhos pendurado na parede. Ela o conduz delicadamente para a rede de novo.

Dra. Vani: - Me conte o que te trouxe aqui.

Black-power (irônico, quase agressivo): - Um jegue é que não foi!

Dra. Vani: - Não foi isso que eu perguntei. Eu quero saber qual é o seu problema, o que te aflige, o que te angustia.

Black-power: -Eu não encontro meu lugar no mundo.

Dra. Vani tem o dom de diagnosticar "logo de cara". E assim o fez.

Dra. Vani (com cara de quem fez uma grande descoberta): - Seu problema é simples de resolver. Eu assisti um filme de um moço que tinha o mesmo problema que você. Ele vendeu tudo o que tinha, queimou parte do dinheiro, colocou uma mochila nas costas e foi pro Alaska. Conheceu um monte de gente bacana, viveu muitas aventuras, leu muitos livros, escreveu suas memórias, aprendeu sobre a vida e as pessoas, emagreceu bastante... morreu e se tornou um herói. Até fizeram um filme com a história dele. Mas eu acho que você não precisa morrer não. Morrer foi exagero da parte dele. (Falava nervosamente, quase em estado hipnótico) Eu acho que você poderia fazer o mesmo. Mudar de ambiente radicalmente. Aqui é muito quente. Você tem cara de que não curte muito calor. O calor dificulta o raciocínio. E tem o suor também. A gente desidrata muito rápido, estraga a pele, envelhece cedo, pode pegar um câncer. Acho o Alaska uma ótima opção pra você. O frio enbranquece, você sabia? E dizem que alisa e clareia o cabelo também. Se metade do povo daqui migrasse pra lá ia ser uma beleza! Todo mundo branco e de cabelo liso sem precisar gastar nada. Além disso lá tem sol à noite... e aquela brancura da neve. Eu adouuuro neve! Nunca vi de perto, mas eu adouuuro! Lá não tem praia... mas tem rio, lago e urso polar. Imagina... viver perto dos ursos polares, em comunhão total com a natureza. Você pode até se engajar nessas campanhas de "Salvem os ursos polares" ou "Salvem a calota polar" e com essa cara... pode até ser garoto propaganda. Ta aí... lá você pode ser ator! Você já pensou em ser ator? Eu acho que você tem vocação pra ser ator. Uma cara bonita, um sorriso encantador, um estilo jovial... tudo que um ator precisa. Mata dois coelhos com uma cajadada só: encontra seu lugar no mundo e ainda ganha de quebra uma profissão glamourosa. Aparece na tv, pode ir no programa da Oprah, no Jô Soares. Podem até fazer um filme com a sua história. Já até vejo os letreiros luminosos a piscar: "Tirapia Holística da Dra. Vani transforma a vida de jovem atormentado". O que te parece?

Ela olha pra rede e o Black-power já não está mais lá. Procura ele pela sala, sem entender o que havia acontecido. Estava achando sua explanação tão convincente, sua idéia tão promissora. Estava feliz por ter encontrado tão facilmente a solução para aquela alma atormentada e ele some sem nada dizer? E o pior... sem pagar a consulta?!! "Tá certo isso??!!" perguntou para si mesma. Ficou revoltada por dois segundos. Depois, pegou seu caderninho de controle de atendimento e anotou "Black-power do Alaska" na coluna "Caridade" com uma nota: verificar nos próximos dois anos manchetes sobre brasileiro que se muda pro Alaska e salva ursos polares. Sua cota de caridade da semana já estava cumprida e com a grande possibilidade de torná-la famosa mundialmente. Restava agora arrumar pacientes pagantes. Fechou o consultório satisfeita, já elaborando um estratagema pra conseguir uns clientes. Lembrou do que o Black disse: -Bar de Geraldo... é pra lá que eu vou!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Não vá pra cama sem ela


Dra. Vani era dessas psicólogas pouco convencionais. Na verdade, antes de ser psicóloga ela havia tentado ser várias coisas: advogada, administradora, engenheira química, publicitária, médica, atriz, quiroprata, cosmetóloga e astronauta. Entrava e saia da faculdade sem o menor pudor, até que se encontrou na psicologia. Como já era de se esperar, seus métodos não são dos mais ortodoxos. Ela nutria a ambição de ser a "Freud" do século XXI. Iria abalar as estruturas da sociedade com revelações nunca d´antes feitas sobre a natureza humana. As cobaias ela já tinha.

Pois é... as cobaias da Dra. Vani eram seus clientes. Quase não é possível falar deles assim, no plural, porque eram apenas dois. Dois pobres infelizes. Aliás, pobres não... porque os honorários cobrados pela Dra. eram obscenos. Infelizes... talvez. Tenho cá minhas dúvidas. E com uma terapeuta como ela, seus dois únicos clientes eram pessoas, no mínimo, intrigantes. A mulher era aparentemente normal, mas logo na primeira consulta foi diagnosticada com "Complexo de Electra severo". E o melhor... bastou a desgraçada dizer uma única frase: "Não consigo manter um relacionamento por mais de três meses", que a Dra., em sua infinita sapiência, logo a sentenciou. O homem era uma "Telma" (lembram da famosa música do Ney Matogrosso?), que bastou dizer na primeira consulta que "não entendia porque suas ex-namoradas o odiavam" que ouviu da competente psicóloga: "homossexual enrustido que não dá o cu até os trinta, vira mau-caráter". Com esta assertiva, a profissional conquistou o cliente! Vai entender o ser humano...

Com o número escasso de clientes - ela sempre os perdia na primeira consulta e nunca sabia o por quê - Dra. vani fazia bicos como dançarina de arrocha em bares e boates da sua cidade e das cidade vizinhas também. Não era como as Tiazinhas ou Feiticeiras. Não usava disfarces. Não temia ser reconhecida. Sensualizava como ninguém e o que não conseguia de clientes no consultório, angariava de fãs nas boates da vida!

Uma outra informação importante sobre a Dra. é que ela tinha um fixação quase doentia por músicos. Não podia ver um cidadão com um instrumento nas costas que a paixão a arrebatava. Não tinha critérios quanto a personalidade, beleza ou estilo musical... bastava ser músico e pra ela era o suficiente para tornar o cidadão irresistivelmente encantador. Ia a todos os shows e se prostrava na primeira fila. Assistia a todos os vídeos no youtube pra decorar as músicas, que cantava como uma crente fervorosa. Compartilhava esses mesmo vídeos com todos os amigos do Facebook, mesmo diante dos protestos dos que não se identificavam com o estilo musical do seu objeto de paixão. Os amigos eram os que mais sofriam com os amores de Dra. Vani. Ela não poupava ninguém... Mas isso é um capítulo à parte.

Falando em capítulo à parte lembrei de outra informação importante: ela cultuava uma galinha. A escultura de plástico tinha altar e tudo na sua casa. Ela acendia vela pra "santa" e até criou uma oração com a ajuda de um dos seus pacientes que tinha o dom pra "escrevinhar", como dizia. Estou certa que não lembrarei de tudo agora, mas prometo que os deixarei a par das idiossincrasias da nossa protagonista. Ela dá o que falar.

Bem... depois desta breve introdução, só posso convidá-l@s a acompanhar aqui as aventuras desta nobre cientista e seus dois pacientes. Revolucionários, subversivos, paladinos, kamikazes, quixotescos... eles irão provar que Freud estava errado, que Jung não sabia de nada, que Nietzsche chegou perto... mas Tom Zé quando disse, "Eu tô te explicando pra te confundir, eu tô te confundindo pra te esclarecer", mostrou que ele é que é o cara!

P.S.: É importante esclarecer que esta é uma produção ficcional e que qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.