terça-feira, 27 de outubro de 2009

Caio e Clarice...

Todos sabem da minha paixão declarada pela Clarice Lispector e pelo Caio Fernando Abreu. Me deu uma saudade deles. Saudade do cheiro e das formas de seus livros que enfeitavam "minha" estante e hoje estão guardados em uma caixa. Não aquela caixa bonita com um laçarote vermelho... e sim aquelas caixas onde se escondem coisas que não se quer mais ao alcance das vistas, o que não se quer ver a olho nu.

O engraçado é que tenho plena conviccção de eles nunca sairam ou sairão da estante. É que não falo daquela estante pregada ou encostada numa parede fria que os transforma em matéria bolorenta. Falo da estante viva que sou eu... que guardo dentro de mim as cores, formas, aromas e, principalmente, a essência de tudo que me é caro e marca profundamente.

Neste dia de saudade cinzenta, lembrei da Clarice e do Caio. Queria tocá-los através dos seus escritos...

Para abrir as comportas da saudade represada, não vou colocar o escrito de um ou do outro... farei melhor, colocarei o escrito de um sobre o outro. Este é o trecho de uma carta do Caio para seu amigo José Penido em que fala da Clarice.

"Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud."

Ele falava dela, mas tenho a impressão de que falava um pouco de si. Ao falar do destino dela, profetizava o seu também.

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